Eu amo-Vos Jesus pela multidão que se abriga dentro de vós, que ouço, com todos os outros seres, falar, rezar, chorar, quando me junto a Vós.
TEILHARD DE CHARDIN

domingo, 9 de junho de 2013

Oração do coração - II




Quando estudava no colégio das Doroteias ,aos meus 12 anos, ensinaram-me as Irmãs que havia dois anjos voando sobre a terra com dois cestos: num juntavam os pedidos e outro recebiam as acções de graças.Mas acontecia que o cesto dos pedidos chegava ao trono do Altíssimo muito cheio,mas o das graças estava sempre quase vazio.

Foi uma boa lição, que não esqueci mais, no entanto faltava ainda muito para que eu compreendesse o que podia ser o “estado” de oração.

Mais tarde, ao ler o I Livro de Samuel no versículo 5 encontrei na fala de Ana a explicação. Dizia ela:…”derramo a minha alma na presença do Senhor”.

Nada de complicado, nada de difícil esse estar sempre em oração ,s empre derramando a alma na presença do Senhor, porque o Espírito de Deus nos dá assistência contínua, apenas pedindo a nossa disponibilidade e atenção.

A sede de Deus, a ânsia de aqui e agora, na nossa vida comum de todos os dias, Lhe estar sempre unido nidifica no coração , desabrochando, naturalmente, em oração, como a flor exposta aos raios de sol de um novo dia.

Talvez que na espiritualidade do Oriente essa necessidade de orar “em todo o tempo, pelo Espírito “ (Ef 6,18)  tivesse sido sentida mais cedo em todo o povo de Deus e não só, como no Ocidente, nos místicos ou religiosos. O conhecido livro do Peregrino Russo relata a experiência de uma alma simples, mas inundada de Jesus Cristo, que irradia em paz, paciência, serenidade .

Referindo-se à oração do Jesus diz-nos: - “A oração irrompia no meu coração e eu precisava de calma e quietude para deixar essa chama subir livremente e para esconder um pouco os sinais exteriores da oração:l ágrimas,suspiros,expressões de rosto,murmúrios dos lábios” e mais adiante “Qualquer pessoa pode fazer a mesma coisa. Basta mergulhar mais silenciosamente no fundo do coração e invocar mais o nome de Jesus Cristo: imediatamente se descobre a luz interior,t udo fica mais claro e, nessa clareza, aparecem certos mistérios do Reino de Deus.” (Lc 17,21)

A oração do coração




A linguagem de Deus apenas se pode entender com o coração.No centro de nós próprios ,no mais profundo, Deus fala-nos.

Mas nesta vida em que as palavras,os pedidos,as exigências  se tornaram tão presentes…é difícil parar para ouvir a voz do coração.

É difícil quando  a mente é solicitada de forma sempre mais envolvente  para acompanhar os avanços da ciência ou o desenvolvimento da técnica, fazê-la concentrar-se no coração.

Para nos ajudar temos a rica espiritualidade dos padres do deserto.Esses autores espirituais abrem-nos a via para reconhecermos que somos parte inerente de Deus e assim participantes da ilimitada capacidade de dar e receber amor.

Aos padres do deserto,forma que geralmente se usa,para dominar as primeiras formas de monaquismo surgidas nos desertos do Egipto ou da Palestina,do século III ao VI ,devemos a oração do coração que depois os místicos orientais,designadamente na Rússia desenvolveram.

Consiste essa oração em aquietar a mente,fazendo-a descer ao coração e aí ser absorvida pela contemplação do Senhor,que está presente em nós até que nada mais reste do que o encontro pleno de Deus e da sua criatura.

E como é a oração do coração,que nos coloca em orante permanência e sempre vigilantes,para nos irmos configurando cada vez mais a Cristo,Senhor nosso?

Consiste em com simplicidade e humildade, invocarmos constantemente o nome de Jesus,com um coração, que se esvazia de pensamentos e preocupações para se deixar abraçar,na sua totalidade,pela misericórdia de Deus.

Assim nos indicam vários monges do deserto,cujas falas foram recolhidas nesse pequeno tesouro da esoiritualidade oriental que se chama  Filocalia.
  
Mais tarde,no século XII,S.Bernardo de Claraval veio indicar-nos ,também no Ocidente,a poderosa força do nome de Jesus,escrevendo:

Jesus é mel na boca, doce melodia no ouvido, alegria no coração. Mas é também medicina. Há no meio de vós alguém triste? Jesus desça ao coração e depois suba aos lábios; e eis que à luz desse nome desaparecem todas as nuvens, volta a serenidade. Cometeu alguém um pecado? Corre desesperado ao laço da morte? Mas se invocar esse nome de vida, não há de sentir imediatamente o respiro vital?... A quem é que, agitado e hesitante nos perigos, a invocação desse nome de força não restituiu imediatamente a confiança e repeliu o medo?... Nada melhor refreia o ímpeto da ira, reprime o tumor da soberba e cura a ferida da inveja...".


A oração comunitária




Taizé
Desde o princípio, os cristãos sentiam-se movidos a orar em comum e experimentavam a poderosa presença do Senhor :-. Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fracção do pão e nas orações Actos 2,42

Haviam entendido de uma forma profunda as palavras de Jesus ao dizer: "Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles". (Mt 18,20)
De uma maneira misteriosa e intima Jesus associa-nos à sua oblação,à sua oração na santa missa,onde a comunidade celebra e ora em conjunto com o sacerdote em coroamento por excelência da oração comunitária.

A nossa atitude de correspondência à iniciativa do Pai, em nos convocar para Eucaristia, manifesta-se no louvor cantado,mas também em tempos de silêncio e de comunhão.

Os 150 salmos, que eram a oração habitual de Cristo,de sua Mãe ou dos discípulos ,contém  orações de súplica,orações de louvor,mas também contém  espaços em que apenas o coração se abre ao fulgor da misericórdia.Como crianças saciadas deixamos de gritar e de pedir e aninhamo-nos no colo da mãe . 2. … mantenho em calma e sossego a minha alma, tal como uma criança no seio materno, assim está minha alma em mim mesmo.S 131.
        
Mas confiantes em Jesus,que impera sobre os ventos tempestuosos da nossa vida ,como o fez no mar da Galileia,vamos pedir-Lhe que coloque o nosso coração numa tranquilidade receptiva e transformante, para que na actuação do Espírito ,sintamos a brisa suave da Presença de Deus – ( 1 Rs19,11-12) .E nessa transformação que os outros estejam sempre a acontecer.AMEN!

sábado, 8 de junho de 2013

A oração é um ENCONTRO




Quando começamos a compreender que na oração vamos encontrar Alguém e Alguém que nos ama de forma única o sentido da nossa oração muda.

Não é mais um dever,uma obrigação mas uma corrida para o dialogo em que o coração escuta a voz do Pai e adora o Espírito que em si reza de forma inexprimível produzindo uma necessidade cada vez mais forte de  conformar o nosso eu a  Jesus,nosso divino Irmão.

Dizia-nos um monge trapista, sobre a oração ,em que vivia imerso:
“A oração não é só uma criação do Pai, mas também um dos poucos caminhos pelo qual o homem consegue chegar ao nível da linguagem divina. Quando o homem ora, o Pai consegue compreender a linguagem dos filhos. Sublinho que orar não significa forçosamente existência de sons, pode muito bem apenas ser a tua presença.”

Na continuidade da oração vamos descobrindo que o Pai se vai  revelando à medida do nosso próprio mistério,movendo as fibras mais ocultas do nosso ser na Sua direcção.

Muitas vezes nos apontam métodos e formas de rezar,mas nunca podemos abstrair a nossa maneira pessoal,o nosso esforço único de encontrar o Senhor.Vemos nos Evangelhos que todos os encontros de Jesus são pessoais.

Quando os encontros se tornam mais e mais frequentes as virtualidades, que em nós   existem, vão-se expandindo em vida de abundantes frutos.

O Padre jesuíta Dário Pedroso dá-nos ,em síntese, toda a maravilhosa realidade dos nossos tempos com Deus:


Com a oração dar-se-á aos poucos a evangelização do nosso interior, da alma, do coração, da inteligência, da vontade, do afecto, do ser e da vida. Oração que não seja pietismo estéril, piedade balofa, espiritualidade vazia, mas grandeza de alma, plena de Deus, da sua vida e da sua graça. Por isso, oração que transforma, que cristifica, que converte, que cura, que transfigura, que nos mergulha em Deus e nos dá paz e alegria. Oração que nos faz viver de outro modo e nos compromete com os homens, com o mundo.

Oração que nos dará o fogo dos Apóstolos da manhã de Pentecostes. Oração que nos fará incendiários ao jeito de Jesus. Oração que nos dará a graça de vivermos a vida com paixão, de coração aberto para amar sem medida.

Oração que nos fará aprender a morrer, como o grão de trigo, para que os outros tenham vida e a tenham em abundância. Oração que nos abrirá o coração ao amor louco e apaixonado de Deus e nos fará descobri-Lo sempre, e cada vez mais e melhor, como o tesouro das nossas vidas.”

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A oração dos importunos


De muitas maneiras Jesus nos faz sentir que a oração faz parte integrante do cristão.

Como está escrito em Lucas 18,1  - Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo.

Para que compreendamos bem qual o valor que tem para o Pai a nossa comunicação com Ele,recorre  a parábolas ,em que com cores bem vivas ,nos descreve que devemos ser até importunos,insistir sem desfalecimento,não desistindo ,de em harmonia com a vontade de Deus, fazermos os nossos pedidos e súplicas,como é próprio dos filhos.(Lucas 18,2).

Assim nos fala Jesus da viúva ,que conseguiu obter justiça pela sua persistência (Lucas 18,2) ou do amigo que conseguiria alcançar os pães necessários,porque não se cansava de os pedir.(Lucas 11,5).

O dinamismo da nossa relação com Deus dá-nos essa intimidade com uma aproximação tão intensa,que permite até sermos importunos.

Que prova de amor tão grande o Pai nos concede ,que como abdicando da sua grandeza e glória,nos aproxima Dele em dialogo tão familiar,como só um Abba cheio de ternura e de complacência por estes seres frágeis que somos ,mas a quem quiz entregar a graça da filiação divina.

Diz S.Paulo ,lançando-nos nos braços amorosos do Pai: 6. Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a acção de graças.Fl 4

Mas em todos os nossos pedidos e súplicas sempre estará presente o maior dom que o Pai nos pode conceder : 13. Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem.Lucas 11

Na verdade,no nosso coração, apenas com o  Espírito Santo podemos implorar:Abba,Paizinho querido,Pai Santo,Pai bem amado.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Desde a minha infância...



Pois tu és a minha esperança, Senhor DEUS; tu és a minha confiança desde a minha mocidade. Salmo 71:5

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Mais uma memória da Terra Santa


EU ,JOÃO,VI A CIDADE SANTA




“Eu ,João,vi a cidade santa,a nova Jerusalém...O seu esplendor é como o de uma pedra preciosíssima,uma pedra de jaspe cristalino...Eis a tenda de Deus com os homens.Ele habitará com eles:eles serão o seu povo e  Ele,Deus-com-eles,será o seu Deus.”
As palavras do Apóstolo desfilavam,ardentes,no meu espirito e apenas estava a contemplar,por entre os peregrinos,a Jerusalém terrestre,naquele fim de tarde que acendia esplendores de luzes e brilhos sobre a cidade.
Os crentes do Deus único,os povos da Escritura tinham marcado definitivamente a cidade com as suas diferentes formas de manifestação religiosa,concedendo um cunho singular e único a Jerusalém.Assim,o sol tombante imprimia fulgores sobre a cidadela de David,a cúpula dourada da mesquita de Omar e os vários capiteis arredondados que cobriam a Igreja ortodoxa de Santa Maria Madalena.
A cidade,três vezes santa,surgira por entre salmos de júbilo e era impossivel não pensar em todas as precedentes gerações que de coração assaltado por igual ansiedade,tinham feito,pacifícamente,o mesmo caminho e quantas vezes nas situações mais adversas.
Conquistada Jerusalém aos Jebuseus pelo rei David,foi por ele aumentada dos muros da velha povoação existente.No Monte Moriah,ergueu o filho de David,Salomão,um templo grandioso cumprindo a promessa feita a Deus,por o Anjo do extermínio haver embaínhado a sua espada.

Do bem documentado livro do Pe J.Alves Terças “A Caminho da Terra Santa”,precioso para quem nela peregrina ,se pode ler que  tendo levado o templo sete anos a ser construído,nele trabalharam diáriamente trinta mil operários dos melhores artistas de Israel.Dez mil trabalhadores seguiam todos os meses para o Libano para trazer as madeiras de cedro e pinheiro que deviam ser utilizadas no seu interior.Oitenta mil talhavam a pedra destinada aos ornamentos.

400 anos depois o templo foi destruído em guerra sangrenta,a que se seguiu o exílio na Babilónia.Jeremias,o profeta, lamentou sobre as ruínas ainda fumegantes,a cidade arrasada.

Foi reconstruído o templo pelo rei Herodes,pouco antes do nascimento de Cristo,para ser de novo arrasado,com toda a cidade,70 anos depois da sua morte pelas legiões de Tito,o imperador de Roma.Assim se apenas encontramos  da cidade onde o Salvador sofreu a sua Paixão,o o muro ocidental do 1º Templo ,as escadas de Cedron que tantas vezes eram súbidas e descidas por Jesus,a caminho do Monte das Oliveiras ou um ou outro vestígio arqueológico como a Piscina Probática,não deixamos de sentir intensamente que pisamos terra sagrada,que é nossa pátria também, porque o mais importante,como dizia Saint Exupéry,não é visível aos olhos.

Em Jerusalém os Evangelhos tornaram-se vivos,em tempo e espaço palpáveis e não só na sua imorredoura mensagem.As cúpulas douradas das mesquitas no lugar do Templo,o Monte das Oliveiras, a Via Dolorosa, as  Portas de Jerusalém e depois as infindáveis igrejas e basílicas sagram os lugares em que Cristo,viveu,pregou e sofreu.Alguns desses solos são históricamente autênticos pois Tito ao erger neles templos aos deuses de Roma,para evitar a veneração dos cristãos,assinalou para sempre os santos lugares e essa realidade  torna facil e tocante acompanhar os passos de Jesus e estar com ele na última ceia ou no caminho para o calvário,mesmo no meio das ruas borbulhantes de comércio,que nos rodeiam,tal como no seu tempo,na parte velha de Jerusalém.Eis assim como as estações da Via sacra se vão desenrolando emotivamente,com os peregrinos rezando cada uma delas e precedendo-as de uma pequena introdução.De coração fremente pela dignidade do momento e pela consciência da própria fraqueza,as palavras da 6ª estação-o encontro de Verónica com Jesus-foram-me  saíndo aproximadamente por esta forma:“É uma mulher, que sai de casa para dar apoio a um condenado,arrostando a hostilidade dos seus cidadãos,que receiam as possiveis sanções do poder.Que também nos seja possivel  dar a mão a quem precisa,sem sequer perguntarmos se pertence ao nosso lado,mesmo que com isso arrisquemos alguma coisa.”

Num sábado demandamos o “Kotel Hamaravi” ou seja a parede ocidental do Templo,também conhecida por muro das lamentações,onde os nossos pais na fé,choram  ainda a sua destruição.E aí lembrámos  quantas vezes subiu Jesus ao Templo,orando,ensinando ou protegendo o povo,que “que vinha a ele” desde manhãzinha.  

No dia seguinte,depois de nos recolhermos no local em que se recorda o  túmulo de David,a cuja estirpe pertencia Jesus,entrámos no Cenáculo,onde um grupo de peregrinos louvava o Senhor entoando cânticos vibrantes de profunda alegria,celebrando a entrega do  Amor radical aos filhos do homem e que o anunciavam de forma transparente,tão cheios que eram de força,pujança e júbilo fazendo contraste com os cantos muitas vezes lamentosos,se bem que técnicamente perfeitos,que ouvimos  nas celebrações religiosas,onde segundo creio,se assimila solenidade com tristeza,não chegando a reflectir o maravilhoso dom  do Amor de Deus pelas suas criaturas e a alegria,que desse facto emana.


E se  nos atormenta a mágua de sentir a terra de Jesus ainda tão ensombrada por ódios de tempos oprimidos,onde as palavras de Victor Hugo,que cito de cor, parecem vir muito a propósito :-”Comprazem-se o homens com a guerra e  perde  Deus tempo a  fazer  estrelas e  flores”,não podemos esquecer as promessas do Salvador que nos levam a esperar que toda a Criação será por Ele atraída e transformada.

A última lembrança de Jerusalém está associada ao Santo Sepulcro,de que ficou uma memória  dorida  dos cristãos divididos,celebrando,à vez,o mesmo Senhor.E também a emoção do nosso hino tocado no orgão,depois da Missa,a singeleza da pequena capelinha copta,a percepção da pugente e solitária presença da Mãe Maria e das outras mulheres,na hora derradeira.  

Ao despedir-me do Santo Sepulcro,senti,fortes,as palavras do Anjo da Vida: “Ressuscitou.Não está aqui” e a vigorosa profissão de fé de Job me acompanhou na angústia pressentida da partida :”Porque eu sei que o meu Redentor vive e que no último dia ressurgirei da terra e serei novamente revestido da minha pele e na minha própria carne verei o meu Deus.Eu mesmo o verei e os meus olhos O hão-de contemplar e não outro:esta é a esperança que está depositada no meu peito”.