Eu amo-Vos Jesus pela multidão que se abriga dentro de vós, que ouço, com todos os outros seres, falar, rezar, chorar, quando me junto a Vós.
TEILHARD DE CHARDIN

quinta-feira, 1 de março de 2012


Retiro na cidade - 9-Entrar na terra

Pormenor de As tentações de Cristo de Sandro Boticcelli


Entrar na terra

A Palavra de Deus

«Tu amaste, Senhor, esta terra»
Salmo 85, Ves 2

A meditação


Depois da fome, o diabo muda de forquilha para submeter Jesus a uma outra tentação. Propõe-lhe que se atire do alto do templo, já que Deus enviará os Seus anjos para o levarem nas mãos. Se ele for verdadeiramente o Filho de Deus, não arrisca nada. Para provar a sua confiança em Deus, será preciso que coloque em jogo a sua vida, esquecendo um pouco que é um homem.

Se isso é ser um mártir, fazer sacrifício da sua vida, isso parece estar reservado a alguns, pouco à vontade na sua humanidade, que poderiam abandonar sem arrependimentos. Mas esse não é o nosso caso, nem mesmo o de Jesus. Ainda que Jesus tivesse a cabeça no céu, uma proximidade particular com o seu Pai, ele tinha também de certeza os pés e o coração assentes na terra.


Ele amou a sua terra, os nascer do sol sobre o lago Tiberíades, o calor do Verão. É neste amor que está enraizado o seu compromisso ao lado do seu Povo e de todos os homens, é porque ele estava em sua casa, na terra, que  era plenamente coerente de aí ficar até ao fim, não por heroísmo mas sim por fidelidade.


E nós, onde estamos nós na nossa terra? Não somente segundo os documentos oficiais, mas mais profundamente, mais espontaneamente, onde nos sentimos em nossa casa, onde podemos ser nós próprios, livremente? Será que encontrámos essa terra onde a vida adquire todo o seu peso? Antes de querermos dar a nossa vida, saberíamos dizer de onde a tirámos?


Traduzido de: www.retraitedanslaville.org por Ana Loura

Retiro dos Dominicanos-O paladar de Deus


Retiro na cidade-8- o paladar de Deus

Foto da net: O paladar de Deus

A Palavra de Deus

« Este é o meu corpo que é para vós. Fazei isto em memória de mim. »
Primeira carta do Apóstolo São Paulo aos Coríntios, Cap 11, vers 24

A meditação:

Depois do seu baptismo, o Espírito conduz Jesus para o deserto. Alí, ele conhece a fome e as tentações que vêm com ela: Porquê não mudar as pedras em pão? Colocando-lhe esta questão, o diabo sugere que a criação de Deus tem um problema, que ela é um obstáculo à vida do homem: seria mesmo muito simples se as pedras fossem comestíveis!

Para nós também, o jejum é um clássico dos esforços da quaresma, mas não o olhamos nós com os olhos do demónio, quer dizer como um meio de escaparmos às restrições que nos impõem o nosso corpo e as suas necessidades?

O jejum não vem negar a fome, mas revelá-la, ensina-nos que não comemos apenas para ficarmos saciados, mas para aguçar em nós o desejo de um verdadeiro, de um outro alimento.

Jesus resistiu às tentações no deserto, mas fez ainda melhor dando-nos a eucaristia: ele reconcilia em nós a fome corporal e a espiritual. Comer ou beber já não são distracção que nos afastam da nossa vocação, mas como indicadores directos do que nos alimenta realmente. O verdadeiro sacrifício, é reconhecer que a criação não é uma armadilha a evitar, mas um presente, a ocasião de reencontrar o seu Autor a cada garfada.

Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org por Ana Loura

Roteiro do cristão


1.  Orar antes de começar algum caminho.
2.  Acreditar sempre no que vai fazer ou planear.
2.  Acolher as suas limitações e pedir ajuda sempre que precise.
3.  Escutar os outros primeiro e depois então a si próprio.
4.  Nunca ter pressas a não ser o de amar e perdoar.
5.  Manter a calma em todos os momentos maus e bons.
5.  Ter sempre um lugar de reserva no coração para outros.
7.  Nunca carregar mais do que pode levar consigo.
8.  Atirar borda fora o peso das culpas, as suas e as alheias.
9.  Levar consigo a Palavra nos gestos, nas palavras e na vida.
10. Nunca tentar subir mais alto do que pode nas suas forças.
11. Levar um coração que sabe escutar o silêncio.
12. Levar duas mudas de roupa, a humildade, e a paciência.
13. Saber voltar para trás se esse caminho não é o seu.
14. Procurar sempre um porto seguro, o colo do Pai.
vp

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012


Retiro na cidade A tentação do sacrifício


Foto da net http://maxitugolandia.blogspot.com/2011/06/km-pelo-norte.html
A tentação do sacrifício - 7
A palavra de Deus
Tu não pedes nem holocaustos nem victimas, então eu disse: «eis-me aqui»
Salmo 39, vers 7-8
A meditação
É preciso desconfiarmos do sacrifício.
Porque em cada uma das nossas acções, somos facilmente tentados a fazer rodar o mundo apenas à nossa volta. O sacrifício torna-se então numa competição com nós mesmos, a ocasião de focalizarmos o nosso olhar em nós mesmos, de nos felicitarmos pelas nossas façanhas, e nos lamentarmos pelos nossos desaires. É o complexo do caracol que se enrola em si mesmo, e perde todo o contacto com o mundo exterior
É preciso que desconfiemos também pois, mesmo que mantenhamos o contacto com Deus, se fazemos os nossos sacrifícios por ele, a tentação subsiste de uma relação comercial com ele. Deus torna-se como um dos nossos fornecedores, ele permite-nos que atinjamos os nossos objectivos no domínio espiritual.
Finalmente, ele fica a ser apenas um distribuidor de graças, para o qual bastará deslizar a moeda do nosso sacrifício.
Sair desta tentação, é darmo-nos conta de que Deus não precisa dos nossos sacrifícios, que os sacrifícios não servem para nada. Mas um ser humano faz apenas coisas úteis? Porque somos criados às imagem de Deus, podemos por vezes ter vontade de actos de generosidade gratuita, desmesurada, que não procura ser rentável nem razoável. Tornando-nos como o prolongamento da generosidade de Deus, podemos experimentar a liberdade de fazer aquilo para o qual fomos feitos.

Traduzido de: http://www.retraitedanslaville.org/ por Ana Loura

Retiro dos Dominicanos - Sacrificar os sacrifícios

Retiro na cidade - 6
A Palavra de Deus
« Quero o amor e não o sacrifício. »
Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus, Cap 9, vers. 13
A meditação
Jesus disse-o claramente, o que Deus espera dos homens não são sacrifícios. Ele não quer este ou aquele presente, ele não nos obriga a esta ou aquela privação. Na nova relação que Jesus vem criar entre Deus e os homens, o sacrifício está fora de questão. E nós estamos perfeitamente de acordo com ele!
Com outras designações, a realidade torna-se portanto numa experiência quotidiana. Para os pais por exemplo, que estão prontos a fazer sacrifícios, e que os fazem concretamente pelos seus filhos, pela educação deles, para os tornarem felizes. Por cada um de nós também, ainda que um pouco misteriosamente, fazendo esforços, dando-nos problemas, sentimo-nos existir.
Será preciso, pois, sacrificar os sacrifícios? Desembaraçarmo-nos deles, como de uma coisa de perniciosa que nos impede de desabrochar? Podemos sonhar com isso. Mas Jesus não funciona nunca desse modo. Não faz tábua rasa nas nossas vidas, ele não suprime o que existe para o substituir por alguma coisa nova, de estranha. Ele endireita pelo contrário o que somos, ele repõe cada coisa no seu lugar para que a vida circule de novo.
O sacrifício pode assim ser transformado, para deixar de ser um fim em si, mas um momento na expressão de um amor pronto a enfrentar os obstáculos, a empenhar-se fisicamente, a fazer tudo o que pode para ver realizados os seus projectos.
Traduzido de www.retraitedanslaville.org por Ana Loura

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Retiro dos Dominicanos - Animais selvagens ou anjos?

Retiro na cidade - 5 

A Palavra de Deus


"Jesus ficou no deserto quarenta dias tentado por Satanás. Ele vivia entre os animais selvagens e os anjos serviam-no. "
Evangelho de Jesus Cristo Segundo São Marcos, Cap 1, Vers 13


A meditação


Logo que é baptizado, Jesus vai para o deserto. Ele vai enfrentar um ambiente hostil, onde não terá nada para comer, que o vai forçar a privações, que irá expô-lo aos animais selvagens. Como nós, ele vê chegar uma quaresma, e talvez ele cerra um pouco os dentes no princípio. Mas ao ir para o deserto, Jesus, regressa, também, às fontes do amor de Deus, e os anjos também o esperam. Com efeito, o deserto é a primeira etapa da viagem do povo hebreu, depois da sua libertação da escravatura no Egipto. Foi lá que ele fez a aliança com Deus, ali onde começou a prestar-lhe um culto. E o curso da história que nos conta a Bíblia, os profetas o convidaram várias vezes a voltar ao deserto, esse lugar de alianças, para reencontrar a frescura dos primeiros tempos do amor. Para nós também a montanha da quaresma apresenta esses dois lados: esforços a fazermos, uma certa disciplina, talvez sacrifícios, e depois um amor a ser reconquistado, uma presença a ser reencontrada, recordações a serem refrescadas. Será preciso escolher um lado e não o outro? Anjos ou animais selvagens?


Apesar de todas as criticas que teríamos para fazermos espontaneamente aos sacrifícios, talvez não seja preciso desembaraçarmo-nos deles com demasiada pressa, nunca antes de termos experimentado compreender de que se trata, nunca antes de os avaliarmos na escala da vida que Deus nos quer dar, e dar-nos em abundância. O que ele nos faz compreender, é que o sacrifício, é logo de princípio uma mesa. Na Bíblia, e até aos tempos de Jesus, se sacrificavam animais a Deus, se lhe ofereciam alimentos, não era porque Deus se alimentava, mas porque era uma ocasião para convidar para a mesa à qual seriam consumidos esses alimentos. Queriam aproveitar a Sua presença, dele que é o protector do Seu Povo, que traz sempre a bênção com Ele. Se Ele vem efectivamente, é porque se recorda de nós, não nos abandonou, a sua misericórdia, quer dizer, toda a sua atenção amorosa, continuará a acompanhar-nos: a essa mesa, é uma família inteira que pode acolher Deus: o sacrifício não é um acto individual, é um grupo que se reúne.

A vinda de Deus tece então laços humanos, ela reforça porque provoca. Enfim, todos sabem que o que é oferecido vem inicialmente de Deus, que distribuiu em primeiro lugar em abundância os bens da criação aos Seus filhos. Oferecer-lhe uma parte desses bens, não é recusa-los não é reembolsa-lo de uma dívida, mas é simplesmente um meio de Lhe agradecer, de Lhe dar graças, para retomar as palavras da Bíblia. É sobre aquele sacrifício que se enxertam os nossos sacrifícios cristãos. Mas Jesus fá-lo ainda evoluir. Ele dá-nos que nos reencontremos a uma mesa nova, a mesa da Eucaristia, à volta da qual nós nos reunimos na Missa. A essa mesa, nós já não somos os que convidam mas os convidados. Deus não desce até nós para partilhar da nossa refeição, mas Ele é esta refeição, do mais profundo da realidade do pão e do vinho. Já não é um corpo social que festeja o seu Deus, mas Deus que nos reúne no Corpo do Seu Filho. Tudo parece estar invertido, ter rodado, mudado de perspectiva, mas esta rotação faz-se à roda de um eixo que permanece fixo: o testemunho do nosso reconhecimento por Deus, um obrigada como um traço de união entre o Terra e o Céu.Esta novidade faz explodir o quadro dos sacrifícios religiosos, pois Deus revela-nos também que não vem ao nosso encontro simplesmente nas nossas cerimónias religiosas, ao interior de actos específicos. Ele não se deixa trancar nos nossos formalismos. Ele quer habitar entre nós todos os instantes das nossas vidas, estar inteiramente disponível. Cada perdão dado, cada ocasião de praticar a justiça, cada testemunho de amor, pode ser a ocasião de nos unir a Ele. Deus torna-se como o terceiro segredo de cada um dos nossos encontros. Nada nos obriga a falarmos da Eucaristia, nem de cada um dos gestos motivados pelo nosso amor a Deus ou aos nossos irmãos, como de um sacrifício. É apenas uma palavra, e pode ser julgada fora de moda. Mas mesmo que Cristo tenha renovado completamente a mesa onde Ele nos reúne, mesmo assim a palavra sacrifício já não é para ser compreendida com sonoridades mórbidas. Já não significa restrição nem divisão. Trata-se de entrar na dinâmica de Cristo, no movimento de conversão que unifica cada uma das nossas acções à dele. Tudo o que nos faltará então perder é o nosso egoísmo. Aquilo a que nos devemos subtrair  é à nossa solidão. Do que precisamos de nos privar é do medo de Deus.


Traduzido de: retraitedanslaville.org
Traduzido por Ana Loura